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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

Errado

 Um bebê mal nasceu e já sabia falar. Todos ficaram espantados com a notícia e alguns estudiosos foram até a maternidade constatar tal fato. Lá, pediram ao bebê para dizer algo. Ele disse "espelancha". Todos ali presentes ficaram comovidos e aprovaram o que foi dito sem emendas. Tanto que um deles anunciou:

- Quem achar que o que o bebê disse está errado, levante a mão!

Só o professor Ditado Silveira levantou a mão.

- O correto seria "esperança", mas, para um bebê, foi uma boa tentativa.

Todos os outros ficaram revoltados. Alguns diziam que o errado era o Ditado, que o bebê estava correto em cada letra, outros xingavam o professor. Alguém gritou "preconceito linguístico". E o professor foi demitido de seu cargo.

- Isso não é justo! - ele reclamou.

- A vida não é justa - responderam.

- mas o short daquela gostosa... - alguém disse.

- Quem foi o engraçadinho?! - perguntou a gostosa.

Mas ninguém se pronunciou.

"Que falta de respeito." Ditado pensou.

O professor foi procurar emprego e encontrou uma vaga onde precisava fazer um teste para passar. O teste consistia em assinar como certo ou errado várias palavras. Sem esquecer de sua demissão, assinalou "certo" em todas as palavras. O encarregado da correção disse que ele foi reprovado pois algumas palavras estavam erradas.

- Isso não é justo! - ele reclamou.

- A vida não é justa, mas o short daquela gostosa...

Ditado olhou para trás e viu uma mulher sentada respondendo o mesmo teste que ele.

Ela foi aceita no emprego.

quinta-feira, 14 de julho de 2022

A Praga Maldita

Em uma noite tranquila, em algum lugar do Brasil, vivia uma família composta por pai, mãe, caçula e irmã mais velha. Os quatro moravam em uma casa modesta, mas espaçosa, com quintal pequeno, mas que rodeava a moradia. Nesta noite, esta família estava na sala assistindo à televisão. Ainda não era hora das crianças dormirem. Quando, não mais que de repente, todos ouviram sons estranhos vindos do quintal em frente à porta. Os quatro desviaram o olhar da TV para a porta da frente. Porta que abriu-se devagar. O pai perguntou-se se não a tinha trancado, mas antes de verbalizar a dúvida, surgiu uma criatura que não tinha como ser outra coisa que um alienígena. Era maior que a pessoa mais alta da casa, a cor de sua pele era azul-marinho e não parecia vestir roupas, embora não mostrasse órgãos genitais. Também possuía uma antena no meio da testa, de onde vinha os barulhos indescritíveis que a família agora ouvia. Os sons de outrora deviam ser de sua espaçonave, pensou o caçula. A antena da criatura musculosa e intimidadora vibrava, mas o resto de seu corpo estava parado. O ET havia dado poucos passos e fechado a porta sem encostar nela e agora jazia defronte aos quatro humanos como uma estátua. Eles estavam paralisados de medo. Bem, foi o que pensaram, mas, na verdade, a criatura tinha poderes psíquicos, canalizados pela antena, que faziam aquelas pessoas modestas não se moverem. Era difícil até de respirar. A irmã do caçula choraria se não estivesse paralisada. A mãe sentia-se impotente por não conseguir ajudar seus filhos. O pai estava com raiva por não conseguir ver seu jornal noturno. Por horas, o medo tomou conta dos quatro, enquanto a criatura azul ficava parada, impassível, com apenas a antena mexendo. Os barulhos que dela vinham apavoravam a família que nada podia fazer. Estavam consumidos pelo terror. O caçula, que amava histórias de terror, percebeu como não era nada divertido quando uma acontecia na realidade. Depois do que pareceu uma eternidade, amanheceu. Com os primeiros raios solares batendo nas janelas ao lado da porta, veio o estremecer do alienígena. Sua antena parou de vibrar e ele cambaleou para frente, mas fumaça já começara a sair de seu corpo. Sua pele borbulhava e ele queimou rapidamente na frente dos olhares temerosos daqueles que haviam sido suas vítimas até então.

quarta-feira, 1 de junho de 2022

Só Mais Uma História de Amor

- Quero te dizer tudo o que eu sinto por ti.
- Diga.
Ela sente vergonha, mas toma coragem e diz:
- Amo-te.
Ele olha desconfiado a cara trêmula dela.
- Tudo o que tu sentes por mim são apenas duas palavras?
Ela cora. Ele dá um sorriso de deboche. Ela vai embora.
- Desculpe por ontem. Podemos continuar amigos?
Ela diz para ele.
- Claro, até porque não se acaba uma amizade de anos por uma besteira dessas, né?
Ele ri e cora. Ela faz um gesto para afirmar que assentiu e pensa em não desistir de transformar a amizade em um romance.
- Vamos ao cinema?
Dias depois, ela convida.
- Se você pagar, sim.
Ela não vê problema.
- Vamos ao museu? Eu pago.
Depois de meses custeando o amigo, ele resolve abrir o bolso.
- Vamos!
Ela está feliz, parece que seus passeios frequentes estão amolecendo o rapaz.
- Lembra do ano passado, quando debochei de ti?
Ele fala. Os dois esperando o sinal verde para atravessar a faixa de pedestres.
- Quê que tem?
Ela indaga, esperançosa. Ouve-se pessoas gritando.
- Caminhão desgovernado!!
As pessoas correm. Menos ela, paralisada pelo choque. Quando ele percebe que ela não está correndo já é tarde demais.
- Não!!!
Ele chora. Ela foi atropelada, praticamente cortada ao meio pelo meio de transporte.
- Foi bom nosso tempo juntos, obrigada.
- Não fale como se estivesse se despedindo!
Ele chora mais. Ela está perdendo a consciência.
- Por favor, não vá...
Ele soluça enquanto segura a mão dela.
- Amo-te.
São as duas últimas palavras que ela ouve.
- Eu sei.
São as duas últimas palavras que ela diz.
Eles perdem.